E se o clitóris também ajudasse a aliviar a dor?
- Fanny
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Quando a ciência redescobre a inteligência do corpo feminino…
Sejamos honestas: a anatomia feminina foi durante muito tempo um grande mistério para a medicina.
O clitóris completo só foi descrito na tua totalidade em 1998.
Sim. 1998.
O ano do Campeonato do Mundo, do Titanic, e do nascimento do Google.
Enquanto o planeta inteiro via o DiCaprio afogar-se, a urologista australiana Helen O'Connell publicava os trabalhos anatómicos mais completos até hoje sobre um órgão que metade da humanidade possui desde… sempre.
(sim, leste bem.)
O clitóris é o único órgão do corpo humano inteiramente dedicado ao prazer.
Nenhuma outra função conhecida.
Até agora.
Porque um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista científica PLOS One sugere que pode ter outra — e não pequena: aliviar a dor.
Um órgão ainda amplamente desconhecido

Durante séculos, a medicina estudou o corpo feminino de forma parcial, muitas vezes através do prisma do corpo masculino.
O clitóris foi durante muito tempo reduzido à tua única parte visível.
No entanto, sabe-se hoje que este órgão possui mais de 8 000 terminações nervosas e se estende muito além do que se vê.
É uma verdadeira rede — conectada a músculos, fáscias, ligamentos e nervos da pelve.
É um órgão neurológico e hormonal major do corpo feminino.
Não apenas um ponto de prazer.
Ilustrações extraídas de Educação Sexual para Crianças - As Meninas: a Vulva, a Vagina, o Útero, o Clitóris...
escrito por Mathilde Baudy e Tiphaine Dieumegard, com ilustrações de Mathilde Baudy, publicado pelo L'Atelier de la Belle Étoile.
O estudo que muda a perspetiva
De 2020 a 2023, a equipa da Dr.ª Manon Bestaux-Brethez, sexóloga no departamento de Ginecologia-Obstetrícia do Hospital Universitário de Rouen, conduziu um estudo piloto com 32 grávidas.
O objetivo final é explorar uma hipótese pouco estudada — a função analgésica do clitóris.
As participantes podiam utilizar um dispositivo vibratório externo, posicionado no ligamento suspensor do clitóris, durante os episódios de dor.
Os resultados são impressionantes.
81,25% das mulheres utilizaram o método.
Em 304 episódios dolorosos geridos, o alívio foi reportado em 86,2% dos casos.
A pontuação de dor passou de 5,35 para 2,63 em 10 — uma redução de quase metade.
O estudo foi publicado em dezembro de 2025 na PLOS One (DOI: 10.1371/journal.pone.0333112).
A Dr.ª Bestaux-Brethez deixa claro: «é um ato terapêutico, não um ato sexual».
Uma nuance importante, num domínio ainda rodeado de tabus.
Porquê funciona: o que acontece no corpo
A estimulação do clitóris ativa vias neurológicas específicas. Uma vez que o orgasmo — que desencadeia uma libertação de ocitocina — não era o objetivo no estudo da Dra. Bestaux-Brethez (2 orgasmos indicados para 304 episódios dolorosos), pode pensar-se que o alívio constatado está ligado a uma libertação de beta-endorfinas — estas moléculas que se chamam muitas vezes os analgésicos naturais do corpo.
Provoca também um aumento da ocitocina — a hormona da descontração e da ligação — e uma diminuição do cortisol, a hormona do stress.
Um ponto que merece ser sublinhado: a ocitocina sintética, por vezes utilizada para desencadear o trabalho de parto, aumenta as contrações sem este efeito calmante das beta-endorfinas.

O corpo, por tua vez, produz ambas em conjunto.
No centro deste mecanismo: o nervo pudendo.
O teu nome diz muito: pudendo vem do latim pudendum — vergonha. Foi assim que a medicina designou durante muito tempo os órgãos genitais femininos. O nervo do prazer e da dor, chamado nervo da vergonha.
Este nervo inerva todo o pavimento pélvico — e divide-se nomeadamente no nervo dorsal do clitóris.
É ele que liga a estimulação clitoridiana aos reflexos neuro-pélvicos do útero e do pavimento pélvico.
Tudo está ligado.
O que ouço em consulta
O que me comove nesta investigação é que ela corresponde a relatos que ouço regularmente.

Mulheres que acompanho partilharam espontaneamente que a estimulação clitoridiana — manual ou com um estimulador externo — contribuía para aliviar dores muito diversas.
Algumas evocam um alívio das dores menstruais.
Outras falam de enxaquecas ou dores de cabeça que se atenuam.
Há aquelas para quem é uma forma de cortar com a ansiedade, as angústias — esta «bicicleta na cabeça» que não para de rodar, a carga mental que ocupa todo o espaço.
Mulheres falaram-me também da tua experiência durante o trabalho de parto — um território que alguns começam a nomear «parto orgásmico» (Elizabeth Davis, a doula Debra Pascali-Bonaro).
Não são anedotas.
É o terreno que fala.
E a naturopatia nisso tudo?
O que me toca nesta abordagem é que corresponde a uma convicção que tenho há muito tempo:
O corpo feminino possui recursos fisiológicos poderosos.
A naturopatia assenta precisamente nesta capacidade natural de autorregulação.
Entre as abordagens que exploro em consulta, segundo o terreno vital de cada uma, estão os banhos dérivatifs — esta técnica de hidroterapia fria do períneo que atua diretamente no nervo pudendo, reduz a inflamação pélvica e melhora a circulação em toda a esfera genital.
Uma ferramenta ancestral, simples, muitas vezes desconhecida — que trabalha precisamente a mesma zona explorada pelo Hospital Universitário de Rouen.

A alimentação também desempenha um papel essencial.
Muitas dores femininas — dismenorreia, endometriose, tensões pélvicas — estão ligadas a processos inflamatórios crónicos.
Uma alimentação viva, rica em anti-inflamatórios naturais — sementes germinadas, espirulina, algas marinhas — pode apoiar o terreno em profundidade e reduzir a intensidade das dores ao longo do tempo.
Existem outras ferramentas.
Cada terreno é diferente.
É o que exploramos juntas.
O corpo feminino já sabe
Em muitas tradições ancestrais — do Tantra à medicina chinesa, dos ritos de passagem femininos às tradições indígenas — o corpo feminino sempre foi considerado uma inteligência viva, capaz de se autorregular e autocurar.

O que a ciência começa a nomear e medir hoje, o corpo das mulheres talvez já soubesse desde sempre.
As mulheres muitas vezes souberam intuitivamente o que a ciência demora anos a demonstrar.
Se falo deste assunto — apesar do teu caráter ainda tabu — é porque a saúde das mulheres merece uma atenção completa, curiosa e sem vergonha.
Compreender o teu corpo — verdadeiramente compreendê-lo — é talvez um dos atos mais poderosos que uma mulher pode fazer.
Perguntas frequentes
O clitóris pode mesmo aliviar a dor?
É o que sugere um estudo publicado em dezembro de 2025 na PLOS One, conduzido pela Dra. Manon Bestaux-Brethez no CHU de Rouen. Em 304 episódios dolorosos, o alívio foi reportado em 86% dos casos e a pontuação de dor foi reduzida a metade.
Como o clitóris age sobre a dor?
A estimulação clitoridiana ativa vias neurológicas específicas e leva à libertação de beta-endorfinas — os analgésicos naturais do corpo — com aumento de ocitocina e diminuição do cortisol.
Quando o clitóris foi completamente descrito pela medicina?
Em 1998, a urologista australiana Helen O'Connell publicou os trabalhos anatómicos mais completos até à data sobre este órgão, presente em metade da humanidade desde sempre. Outras descrições já existiam, mas eram menos completas e menos precisas — Helen O'Connell beneficiou de técnicas de imagiologia modernas como a ressonância magnética.
O que é o nervo pudendo?
O nervo pudendo inerva todo o pavimento pélvico e ramifica-se no nervo dorsal do clitóris. Liga a estimulação clitoridiana aos reflexos neuro-pélvicos do útero e do pavimento pélvico.
O que propõe a naturopatia para as dores femininas?
Diferentes cuidados e conselhos naturais adaptados segundo o tipo de dores e o terreno vital de cada pessoa, de forma a personalizar o plano de saúde. É o que exploramos juntas em consulta, de forma holística e global.
Para ir mais longe
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