Estas dores femininas que minimizamos: o teu corpo está a comunicar
- Fanny
- 10 de jul.
- 10 min de leitura
"Não encontrámos nada."
"É tudo na sua cabeça."
"É normal ter dor."
Não. Isso não é normal.
Se já ouviste uma destas frases num consultório médico, não estás sozinha. E não imaginaste a tua dor.
O que a medicina se recusou a ouvir durante muito tempo
Não é por acaso que as dores femininas demoraram tanto tempo a ser reconhecidas. Durante séculos, a medicina ocidental utilizou o conceito de histeria — do grego hystera, útero — para classificar o que não conseguia explicar nas mulheres. Nervosismo, dores sem causa, perturbações de comportamento: histeria. A própria palavra trai o pensamento.
Ainda hoje, algumas escolas de medicina ensinam a endometriose evocando causas emocionais. E a grande maioria dos estudos clínicos de referência foram realizados em sujeitos masculinos — o paciente-modelo é um homem de 70 kg. As dosagens, os protocolos, os limiares de dor: calibrados para um corpo que não é o teu.
Não é uma teoria. É uma realidade documentada. E saber isso é começar a sair da vergonha.
Estas dores que não ousamos nomear
Em consulta, as mulheres raramente chegam com um diagnóstico claro. Chegam com anos de perguntas sem resposta, e muitas vezes uma frase: disseram-me que era na minha cabeça.
No entanto, estas dores — damos-lhes etiquetas, têm nomes precisos.
A dismenorreia — as regras dolorosas — afeta entre 50 e 90% das mulheres em idade fértil. A vulvodínia: dor crónica da vulva sem causa infecciosa identificável. A endometriose provoca dores pélvicas intensas, frequentemente durante anos antes de ser diagnosticada. A síndrome do pavimento pélvico hipertónico gera tensões, dores e dificuldades nas relações. A nevralgia pudenda irradia a partir do nervo pudendo e pode afetar diversas zonas da vulva e do clitóris. E o vaginismo — de que falo mais adiante — é uma contração involuntária que torna a penetração impossível ou muito dolorosa.
Com ou sem nome, com ou sem etiqueta, com ou sem diagnóstico, estas não são dores imaginárias. São realidades clínicas que a naturopatia acompanha, por vezes em articulação com outros profissionais de saúde. Muitas dores podem ser acompanhadas sem lhes atribuir uma etiqueta, um nome, um diagnóstico. Podemos acompanhar a inflamação, a hidratação, a acidez, a detox por exemplo. Os sintomas e o terreno dão-nos as informações úteis para ir procurar a causa da causa... Reequilibrar o terreno, pouco a pouco.
O que ouço em consulta
Todas as semanas, mulheres vêm ter comigo depois de anos de dores.

Dores menstruais tão invalidantes que já não conseguem trabalhar, cuidar dos filhos, viver uma vida 'normal'. Enxaquecas cíclicas que regressam como um metrónomo. Dores pélvicas difusas para as quais todos os exames voltaram normais.
Várias das minhas utentes tinham dores na zona do nervo pudendo: na virilha, no clitóris, no períneo.
Tinham consultado: médicos, ginecologistas, feito radiografias, ecografias, tomografias, ressonâncias...
Diziam-lhes que não havia nada.
E no entanto, trabalhando de forma holística no seu terreno vital, conseguimos atenuar e aliviar muitas dores, com ferramentas naturais, por vezes manuais, por vezes alimentares.
O que mais me toca: muitas utentes voltam dizendo que as suas dores diminuem com o que implementaram... quando isso nem sequer era o objetivo inicial da sua consulta.
Dores menstruais, enxaquecas, sensibilidade nos seios, SPM, infeções urinárias, incontinências, desconforto ou dores durante as relações — o corpo responde, quando finalmente o escutamos.
Estas mulheres esperaram muitas vezes anos antes de procurar outra pista. Porque interiorizaram que era normal. Ou que estava na sua cabeça. Ou que eram demasiado sensíveis.
Não são anedotas. São sinais que ninguém aprendeu a ler.
O terreno vital: olhar onde a medicina não olha
Em naturopatia, falamos de terreno para designar o conjunto de condições em que um corpo funciona — a alimentação, o sono, o stress, a história emocional, as tensões físicas acumuladas, os ciclos hormonais, a vitalidade.
Quando o terreno está fragilizado, o corpo envia sinais. A dor é um deles. Uma dor persistente, cíclica, difícil de localizar — é um corpo que pede atenção. Não um corpo que exagera.
É precisamente o que Rina Nissim apresenta em Mamamélis, o seu manual de ginecologia naturopática: e se as mulheres recuperassem o controlo da sua saúde ginecológica? O auto-cuidado ginecológico que defende há décadas assenta numa ideia simples — o teu corpo é teu, e tens o direito de o conhecer. É exatamente o que proponho em consulta, retiro e formação: dar-te as chaves para compreenderes o que o teu corpo expressa, e não depender unicamente de um diagnóstico externo para avançar.
O pavimento pélvico, o períneo e o nervo pudendo
Bernadette de Gasquet disse-o com força: "Períneo, paremos com o massacre"

Partos demasiado rápidos, episiotomias injustificadas, exames ginecológicos realizados sem consentimento informado — tudo isso deixa marcas no pavimento pélvico. No nervo pudendo. Na forma como uma mulher habita a sua bacia, o seu corpo.
Este nervo — outrora chamado nervo da vergonha, pudendum significando vergonha em latim — inerva todo o pavimento pélvico, o clitóris, o útero, os esfíncteres. Quando está irritado ou mal regulado — devido a inflamação crónica, stress prolongado, ou um pavimento pélvico hipertónico — as dores instalam-se. Difusas, persistentes, resistentes aos exames padrão.
Não é que nada tenha sido encontrado. É que ninguém procurou no sítio certo.
O vaginismo: quando o corpo diz não
Tomemos um exemplo.
O vaginismo é uma contração involuntária e reflexa dos músculos vaginais que torna a penetração difícil ou mesmo impossível — seja para uma relação sexual, um exame ginecológico, ou a utilização de um tampão. Não é uma escolha consciente. É o corpo a proteger-se.
Recebo regularmente mulheres que vivem com esta perturbação há anos, muitas vezes em silêncio. Algumas ainda não encontraram palavras para isso. Outras foram examinadas sem preparação, sem informação, e a sua experiência reforçou o problema.
O vaginismo manifesta-se em graus muito diferentes — de uma ligeira tensão que torna as relações desconfortáveis a uma contração total que as torna impossíveis.
Não existe um único vaginismo. Existe uma mulher, uma história, um corpo, uma combinação única de fatores.
É por isso que trabalhamos juntas em quatro planos simultaneamente:
O corpo físico: a inflamação das mucosas, a secura vaginal, a falta de hidratação, o tónus do pavimento pélvico, uma reabilitação suave e consciente do períneo. Não se pode pedir a um corpo tenso e mal nutrido que se abra. Começamos por devolver-lhe recursos.
As emoções: o vaginismo instala-se frequentemente após uma experiência dolorosa, uma intrusão não consentida, uma vergonha vivida em torno da sexualidade. O trabalho emocional — seja acompanhado por uma terapeuta, uma parteira formada em sexologia, ou num contexto naturopático — é útil.
Acolho as palavras sem julgamento, com benevolência.
O mental: as nossas crenças sobre a sexualidade, sobre o corpo feminino, sobre o que a feminilidade deveria ser imprimem-se profundamente. Muitas mulheres pensam que o seu sexo é sujo, que a vulva cheira mal — existem até tendências como comer ananás para que a «rata» não cheire mal... Tantos produtos são vendidos para mascarar os odores femininos: gel íntimo, sabonete íntimo, toalhitas. Tudo isso contribui para uma relação de repulsa ou vergonha com o próprio corpo. Estas crenças não são neutras. Participam na contração. Libertar-se destas crenças é fundamental. E tomar consciência delas é já um grande passo em frente.
O plano energético: no Ayurveda, o chakra sacral — chamado svadhisthana — está associado à sexualidade, à criatividade, ao prazer e à relação com o outro. Quando este centro está bloqueado, a bacia fecha-se, os limites tornam-se rígidos em vez de vivos.
Os elixires florais podem apoiar este trabalho. O elixir de manjericão é o que exploro frequentemente com mulheres que vivem uma sexualidade sob tensão: dirige-se a estados de repressão, vergonha, proibição em torno da sexualidade — e o seu potencial é o de uma sexualidade sagrada, autêntica, habitada pela confiança e pelo prazer.
Não há solução universal. Mas há sempre algo a fazer, a depositar, a reabrir.
Ginecologia natural: trabalhar com o corpo, não contra ele

Enquanto herbalista e naturopata, proponho uma forma de abordar a saúde das mulheres: trabalhar com o corpo, não contra ele. Escutar em vez de corrigir. Honrar os ciclos em vez de os neutralizar.
Esta sabedoria das plantas e dos ciclos — transmitida durante milénios antes de a medicina académica a desqualificar — está no coração do que pratico em naturopatia feminina.
A ginecologia natural não pretende substituir o médico. Visa mais autonomia e compreensão.
Propõe um espaço onde o corpo não é um problema a resolver, mas uma inteligência a acompanhar.
Algumas plantas aliadas: algumas têm uma ação específica na situação hormonal. O agno-casto (Vitex agnus-castus) regula o ciclo atuando sobre a hipófise — precioso na perimenopausa ou quando o ciclo se torna irregular. O shatavari — raiz de espargo selvagem utilizada no Ayurveda há séculos — nutre as mucosas, apoia a fertilidade e acompanha as transições hormonais. A sálvia é uma aliada dos afrontamentos e suores noturnos.
Para a inflamação e a circulação na pequena bacia, uso muito o milefólio — antiespasmódico, facilita o fluxo menstrual e acalma as cólicas. E o pé-de-leão, suave, que apoia a fase lútea e atua nas dores pré-menstruais.
Lembro sempre: as plantas não são inócuas. Integram-se numa abordagem global, adaptada ao terreno. São subtis e é importante combiná-las bem para realizar sinergias positivas.
É todo o objeto da consulta.
A alimentação ao longo do ciclo: os legumes verdes folhosos fornecem os minerais que as menstruações esgotam. As gorduras de qualidade — abacate, nozes, azeite, peixe gordo pequeno — são os precursores das hormonas. Alguns dias de detox personalizada e bem posicionada no mês podem aliviar muitos sintomas.
A alimentação personalizada é, portanto, indissociável deste trabalho de fundo para melhorar a nossa saúde.
O fígado, maestro silencioso
Falamos muito sobre as hormonas femininas. Falamos pouco sobre o órgão que as trata.
O fígado está no coração do equilíbrio hormonal feminino. É ele que metaboliza e elimina os estrogénios circulantes para os tornar solúveis e evacuá-los. Quando o fígado está sobrecarregado, fatigado, ou simplesmente mal apoiado pela alimentação e pelo estilo de vida, esta eliminação abranda. Os estrogénios acumulam-se. E é aí que os desequilíbrios se instalam: ciclos dolorosos, síndrome pré-menstrual intenso, tensões no baixo-ventre, humores variáveis.
Não é uma fatalidade. É uma informação.
Apoiar o fígado é aliviar a sua carga: menos açúcares, álcool, poluentes. É também dar-lhe o que necessita: legumes amargos, couves e crucíferas, plantas como a alcachofra. E deixá-lo descansar — o fígado trabalha de noite. Não é por acaso que as mulheres com um fígado sobrecarregado têm frequentemente o sono interrompido na segunda parte da noite.
E o sono das mulheres?
Penso que é um dos temas menos levados a sério na saúde feminina. Toda a gente diz 'durma melhor'. Ninguém diz como, na sua situação específica.
Porque o sono de uma mulher não é o sono de um ser humano genérico. Uma mulher na perimenopausa pode ser acordada por afrontamentos às 2h, 3h, 4h da manhã — os estudos mostram que 40 a 50% das mulheres em transição menopáusica referem uma deterioração significativa do sono.
Durante a gravidez, é outro desafio: os movimentos do bebé, as vontades frequentes de urinar, a dificuldade em encontrar uma posição confortável, as angústias noturnas — o sono fragmenta-se muito antes do nascimento. E depois, o aleitamento implica acordar repetidamente, por vezes durante meses ou anos.
E antes mesmo de chegar à perimenopausa ou à maternidade, há a carga mental: a lista de compras que revemos enquanto adormecemos, as consultas dos filhos, o trabalho, as relações. Um cérebro que não para. O sono é frequentemente a primeira vítima.
Em naturopatia, o sono é um pilar fundamental da saúde — ao mesmo nível da alimentação, da respiração e da eliminação. Não um luxo. Uma necessidade fisiológica.
Quando uma mulher dorme mal de forma crónica, o seu terreno enfraquece, o seu fígado recupera menos bem, as suas hormonas desestabilizam-se, a sua capacidade de gerir a dor diminui.
Dores reais num corpo que foi ignorado
Martin Winckler foi um dos primeiros médicos franceses a nomear publicamente o que muitas mulheres já sabiam: a medicina exerce uma violência sistémica sobre os corpos femininos. O seu romance Le Choeur des femmes conta por dentro o que é um sistema médico que aprende a não escutar.
As violências ginecológicas e obstétricas são hoje reconhecidas como uma realidade. Exames impostos sem consentimento, dores minimizadas durante os partos, a palavra das pacientes ignorada. Estas violências deixam marcas. Físicas. Emocionais. Mentais. Energéticas.

O teu corpo não é dramático.
Está a comunicar.
E merece ser ouvido — sem julgamento, sem minimização, com todo o respeito que lhe é devido.
Perguntas frequentes
Porque é que as dores femininas não são levadas a sério?
É uma realidade documentada. Durante séculos, as dores das mulheres foram minimizadas ou psiquiatrizadas. Ainda hoje, uma mulher espera em média 7 a 10 anos antes de obter um diagnóstico de endometriose. Não está na tua cabeça. Está num sistema de saúde que foi construído assim.
É normal ter dor durante as regras?
Sensações, contrações ligeiras — sim, é fisiológico. Dores que te impedem de viver, que te prendem à cama, que requerem analgésicos sistemáticos — não. Não é uma fatalidade. É uma informação sobre o teu terreno vital que merece grande atenção.
O que é o vaginismo?
É uma contração involuntária dos músculos vaginais que torna a penetração difícil ou impossível. Não é uma recusa consciente, é um reflexo de proteção. Trabalha-se — a nível físico, emocional, mental e energético. Sempre de forma personalizada.
Qual é a ligação entre o meu fígado e as minhas dores menstruais?
O fígado metaboliza e elimina os estrogénios. Se estiver sobrecarregado, as hormonas acumulam-se. O resultado pode ser ciclos dolorosos, síndrome pré-menstrual intenso, tensões pélvicas crónicas. Apoiar o fígado — pela alimentação, as plantas, o sono, por vezes mesmo por purgas ou jejum — faz parte do trabalho de fundo.
A naturopatia pode ajudar nas dores pélvicas crónicas?
A naturopatia pode acompanhar o organismo feminino de forma holística: reequilibrar o terreno, reduzir a inflamação, apoiar o sistema hormonal, trabalhar nas emoções e no estilo de vida. A abordagem é sempre personalizada — não existe protocolo universal para as dores femininas. Muitas das minhas utentes veem uma grande melhoria dos seus sintomas (endometriose, dores menstruais, SPM, vaginose, infeções urinárias, infeções vaginais, candidíases...)
E se sofro há anos sem explicação?
Não estás sozinha. A errância médica é uma realidade para muitas mulheres. A naturopatia pode ser um espaço para começar a investigar de outra forma — não em vez da medicina, mas a seu lado.
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